Um sono de beleza

 

Camisola com mangas franzidas
Sobretudo com escapulário em imitação pelo

Muito antes de a ciência começar a descobrir as várias funções do sono e a espantar-se com a sua importância transversal a quase todos os processos de vida, já se usava a expressão “sono de beleza”, por se saber, instintivamente, que noites bem dormidas, em quantidade e qualidade, contribuíam para uma boa aparência.

De facto, o sono é crítico em tantos aspectos da nossa vida, que se torna difícil abarca-los todos e o que mais nos pode impressionar é o facto de a ciência ainda agora ter começado a levantar o véu sobre o a diversidade dos seus papéis – talvez dentro de poucos anos, nos habituemos a usar o sono como uma medida protectiva e reparadora de vários estados emocionais e físicos.

Por enquanto, no entanto, nas sociedades ditas desenvolvidas, há um menosprezo, que muito deve à ignorância, do tempo passado a dormir. Dormir é associado, na cultura dominante, a preguiça, inacção e desperdício, e as sociedades organizam-se em torno de uma gestão de tempo que grita esta pouca importância que damos ao sono. Como resultado, observa-se um desgaste que nem sequer se consegue estimar bem, dado que a natureza humana é complexa e sempre de causas multifactoriais, em diversas áreas do funcionamento humano.

O que sabemos hoje? Bem, falamos-lhe aqui apenas de um bocadinho do que se sabe hoje, porque tudo seria encher um website (coisa que, aliás, estamos a fazer num website todo ele dedicado a sono):

Aspectos cognitivos

Dormir é a peça-chave que permite a integração de aprendizagens. Aliás, qualquer estudante eficiente sabe que mais vale uma boa noite dormida em cima de um pouco de estudo, do que uma directa para tentar acabar de ler tudo o que há para estudar. É enquanto dormimos que o cérebro começa a analisar os milhares de informações recolhidas durante o dia, faz a sua triagem e as consolida, deixando-as preparadas para serem integradas nas nossas redes de memória de longo prazo. Coisa pouca, portanto…

Existem, também, diversas demonstrações sobre o impacto que o sono tem sobre os processos de criatividade – acha-se uma pessoa pouco capaz de voos criativos? Experimente umas boas noites de sono!

Além disso, o sono adequado está directamente ligado à acuidade mental: a capacidade de atenção e concentração, a rapidez de raciocínio, a base de ponderação de elementos importantes para bons processos de tomada de decisão,… Tudo o que representa actividade cognitiva encontra-se, de uma forma ou de outra, dependente na sua eficácia e eficiência da quantidade e qualidade do sono.

Aspectos emocionais

Sono insuficiente ou de má qualidade degrada o estado de humor. Surgem padrões emocionais como a irritabilidade, a impaciência, a intolerância e o humor torna-se mais sombrio, com menos contraste, mais letárgico, pavimentando o caminho para um humor depressivo.

Existem teorias, em estudo actualmente, que conceptualizam uma das fases do sono (sim, o sono tem uma arquitectura própria que se constrói em fases sequenciais e padronizadas de funcionamento fisiológico), denominada sono REM, como fundamental para a integração emocional. Ou seja, durante esta parte do sono, as emoções que nos atravessaram durante o dia seriam, também elas, e a exemplo das informações intelectuais, analisadas, triadas e consolidadas, permitindo-nos sentirmo-nos estruturados e de pés bem assentes na terra naquela outra parte do nosso dia-a-dia em que estamos de olhos abertos.

Aspectos físicos

Além de nos deixar com bom aspecto? Ah, sim, o bom aspecto é o menos importante, porque se trata de um mero resultado – agradável, sem dúvida – de uma melhor saúde física. O sono é vital no bom funcionamento do sistema imunitário e isto diz (quase) tudo, verdade? Dormir bem é preparar o organismo para se defender de ataques à sua integridade saudável.

Sendo o reforço do sistema imunitário tão importante em todas as dimensões da saúde física talvez não tivéssemos de dizer mais nada, mas há um aspecto, simultaneamente curioso e importante que foi demonstrado: o sono ajuda a prevenir a obesidade! E esta, hem? Dormir para emagrecer é um conceito muito pouco conhecido.

Na dança habitual entre causas e efeitos, o sono não lhe escapa. Do lado da consequência, a falta de saúde, física e psicológica, dificulta o sono. Por exemplo, nos problemas mais comuns de psicopatologia – as perturbações ansiosas e depressivas – a função sono encontra-se sempre degradada, como um dos sintomas clássicos que contribuem para o diagnóstico clínico. Mesmo assim, tratar dos problemas de sono isoladamente, ajuda o organismo na recuperação desses mesmos problemas de que se constitui como sintoma.

Do lado da causa, um sono insuficiente, pela disrupção de processos vitais que só ocorrem enquanto dormimos, cria as condições internas que abrem portas à doença, médica ou psicológica.

Por isso da próxima vez que pensar “Não faz mal, posso deitar-me mais tarde e no fim-de-semana recupero” convém pensar duas vezes… Até porque também está demonstrado que sono perdido não se recupera, pelo menos na sua totalidade – pode sentir menos sono, mas aquilo que ficou por fazer, na sua maioria, já não vai ser cumprido.

Deixamos-lhe algumas dicas simples para que cuide diariamente do seu sono. E… durma bem!

Autor: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

Direcção Geral da Oficina de Psicologia

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