Sou vintage, é isso

 

Lembro-me bem de recortar bonecas de papel e de lhes vestir as toiletes de que mais gostava. Não gostava de camisolas que picassem, abominava golas altas e as saias axadrezadas com aquele alfinete a prender. Só muito mais tarde viria a perceber que não era um alfinete-dama, mas um alfinete de ama. Mas nem isso me fez gostar dele… As minha bonecas, como se vestiam de papel, sempre me pareceram mais ecológicas, mais clean.

Depois, fui abalroada pela adolescência e troquei a farda do colégio pelo equipamento do liceu: kispos de penas com cores berrantes (acho que foi nessa altura que deixaram de se chamar anoraques), calças de gangas justas com uma risquinha de lado, os ténis Le Coq Sportif, t-shirts com buraquinhos e tantas outras coisas que agora encontro nos bazares vintage. Dou por mim a dizer para a minha filha «Isto é do meu tempo.»

Sou vintage, é isso.

Mas da minha adolescência faz também parte a memória da minha explicadora de Inglês, que trazia de França o catálogo da La Redoute. Em casa, com a nossa mãe, eu e a minha irmã gémea víamos avidamente a revista  e comprávamos sempre um fato de banho (quando ainda não se chamava swimwear), daqueles que mais ninguém tinha. Lembro-me de um preto, com um fecho-éclair, ou zip (nos dias de hoje), à frente. Nem percebi a sensualidade daquilo.

Hoje, depois de tanto tempo de lojas, gosto cada vez mais dos blogs de moda, onde posso estar em todas as ruas do Mundo e espreitar sem ter de usar óculos escuros.

A inspiração faz-nos bem.

A La Redoute foi o meu primeiro blog  de moda das tendências. Gostava de sentir frio quando ainda estava no verão, quando me deliciava com os casacos e as lãs, tal como gostava de ver os fatos de banho e as praias que os enquadravam quando ainda não havia sol.

Nós também somos aquilo com que sonhamos.

Não podemos ter tudo, mas podemos recriar com aquilo que temos.

Texto de Catarina Pereira | Leitora do Magazine de Tendências

Este texto é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

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