Fashion e outras inseguranças

 

Este mês sou a personalidade convidada pelo Magazine Tendências da La Redoute para dar o meu testemunho quanto à presença da marca na minha vida. Não foi difícil: desde há muitos anos que o catálogo entrou na casa da família. Um dos comentários que mais tenho ouvido é o facto de ter sido através do catálogo que certas marcas se tornaram mais acessíveis para muitos – eu incluída. A escolha é imensa, e agora mais do que nunca, os descontos são generosos e bem vindos. Mas porque falo eu disto? Porque fiz um trabalho e quero que saibam disso? Porque alguém me obriga por contrato a fazê-lo? Nada disso. Para além do facto de gostar de trabalhar – gosto mesmo – o dia que passei com esta equipa foi muito compensador. Claro, sabe bem voltar a ser modelo por um dia – se calhar por isso, porque foi só um dia ; ) – e ser maquilhada e vestida e, pronto, fazer de boneca. Mas para além de tudo isto, há uma lição a aprender. 

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Fui de coração um bocado apertado para este dia. Chovia imenso, a viagem de carro é comprida, não tinha dormido muito bem – enfim, na minha cabeça passavam muitas ideias ao mesmo tempo, e as inseguranças parvas de quem se acha fora de prazo aos 44 anos para fazer de miúda gira numa sessão de moda. A atestar essas inseguranças, esperavam-me roupas que, por minha culpa, eram demasiados grandes para o corpo que as iria vestir. A minha amiga e stylist Elisa d’Almeida, do blog A Beleza É Um Lugar Estranho (e que foi responsável pelo styling enquanto estive no Mais Mulher), já me aturou muitas destas e sabe do que estou a falar…mas a minha dismorfia não era bem o problema, nem o que mais me preocupava.
Fui modelo durante uns anos (entrei na Central em 1989, mas já trabalhava desde 1987), e algumas das minhas memórias ligadas aos trabalhos que fiz têm muito a ver com um certo ambiente de trabalho que não considero muito saudável. Há muitas pessoas envolvidas, muitas cabeças, muitas sentenças, e principalmente durante os almoços ou jantares não raro se ouviriam conversas pouco edificantes, com maledicência e outros tiques que, de uma maneira ou de outra, todos acabávamos por partilhar, quase por osmose. Sei que isto não acontece só na moda: ao fim e ao cabo, quando as pessoas têm de conviver com gente que mal conhecem acabam por tentar nivelar a coisa pelo denominador comum mais básico de todos: o disparate. 

Quem me conhece sabe que, quando deixada à solta, posso ser a mais disparatada de todos. Esta foi aliás a minha arma durante os anos difíceis do liceu, para lidar com um certo sentido de estranheza que me fazia muitas vezes pensar que para ser aceite tinha de fazer os outros rir. Agora, a anos-luz dessa realidade de outrora e já sem a mesma necessidade premente que sentia de agradar aos outros em detrimento do que sabia ser certo e errado, ainda assim dou por mim a querer preencher espaços vazios de conversa com brincadeiras e piadinhas. Um mau hábito que agora detesto.

Por tudo isto, ia um pouco preocupada com o que ia encontrar, que pessoas ia conhecer, o que esperavam de mim, que lhes podia eu dar que não fôsse contra aquilo em que acredito, como podia fazer um bom trabalho sem me sentir obrigada a comprometer nada do que creio ser essencial e importante. Parece cansativo, não parece? E é. Decidi entregar estes pensamentos na mão de Deus e acreditar que o que foi não tem de voltar a ser, que o meu passado não tem de condicionar o presente nem o futuro. Decidi confiar.

Encontrei pessoas dedicadas, profissionais, atenciosas, solidárias, compreensivas e acessíveis, que todas juntas formavam uma equipa coesa ainda que heterogénea nas idades e experiências de vida. Tivemos uma sessão prazeirosa e produtiva, que nos deixou a todos (creio) com um sentido de dever cumprido e apreciado na sua totalidade, até mesmo na hora do almoço. Falámos de tudo um pouco, partilhámos recordações de adolescência, músicas  e referências comuns e diversas, conversámos sobre filhos, casamentos e namoros, discutimos o futuro e o presente, escutámo-nos uns aos outros e meditámos em conjunto sobre coisas como a educação, o trabalho, o dinheiro, as realidades rurais e urbanas…enfim, fomos humanos sem nunca baixarmos a fasquia. Estou grata a Deus por isso.

A La Redoute está de parabéns, e o motivo não acaba nas ofertas do catálogo. Está de parabéns porque pode contar com gente como a que conheci, profissionais de mão-cheia, que todos os dias fazem um excelente trabalho que, tendo um intuito claramente comercial, traz à luz a melhor parte de todos nós. E não chateia nada que, de caminho, me tenham posto tão bonita!

Adelaide Sousa
Blog MY FAVOURITE THINGS

1 Comentário

  1. Manuela Teixeira - 23 Março, 2014

    é verdade gosto da v/ colecção e tem por vezes ofertas muito interessantes.

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